29.11.06
Que loucura!
John Howe
30.10.06
Silentium
Speak not, lie hidden, and conceal
The way you dream, the things you feel.
Deep in your spirit let them rise
Akin to stars in crystal skies
That set before the night is blurred -
Delight in them, and speak no word.
How can your heart expression find?
How should another know your mind?
Can he discern what quickens you?
A thought once uttered is untrue.
Dimmed is the fountainhead when stirred -
Drink at its source, and speak no word.
Live in your inner self alone;
Within your soul a world has grown.
The magic of veiled thoughts that might
Be blinded by the outer light
Drowned in the noise of day, unheard -
Take in their song, and speak no word!
by Fedor Tyutchev
translated by Vladimir Nabokov
20.10.06
19.10.06
18.10.06
You pray in vain when
You pray in vain when you address yourselves to any other gods but your very selves.
For in you is the power to attract, as in you is the power to repel.
And in you are the things you would attract as in you are the things you would repel.
(Orais em vão quando vos dirigis a outro deus que não o vosso ser.
Pois em vós está o poder de atrair, assim como em vós está o poder de repelir.
E em vós estão as coisas que ireis atrair, assim como em vós estão as coisas que ireis repelir.)
Mikhail Naimy, The Book of Mirdad: The Strange Story of a Monastery Which Was Once Called the Ark , 1962.
12.10.06
Se eu fosse eu
E não me sinto bem. Experimente: se você fosse você, como seria e o que faria? Logo de início se sente um constrangimento: a mentira em que nos acomodamos acabou de ser levemente locomovida do lugar onde se acomodara. No entanto já li biografias de pessoas que de repente passavem a ser elas mesmas, e mudavam inteiramente de vida. Acho que se eu fosse realmente eu, os amigos não me cumprimentariam na rua porque até minha fisionomia teria mudado. Como? Não sei.
Metade das coisas que eu faria se eu fosse eu, não posso contar. Acho, por exemplo, que por um certo motivo eu terminaria presa na cadeia. E se eu fosse eu daria tudo que é meu, e confiaria o futuro ao futuro.
"Se eu fosse eu" parece representar o nosso maior perigo de viver, parece a entrada nova do desconhecido. No entanto tenho a intuição de que, passadas a primeiras chamadas loucuras da festa que seria, teríamos enfim a experiência do mundo. Bem sei, experimentaríamos enfim em pleno a dor do mundo. E a nossa dor, aquela que aprendemos a não sentir. Mas também seríamos por vezes tomados de um êxtase de alegria pura e legítima que mal posso adivinhar. Não, acho que já estou de algum modo adivinhando porque me senti sorrindo e também senti uma espécie de pudor que se tem diante do que é grande demais."
Clarice Lispector
De todos os hábitos a que nos entregamos,
Quando surge uma dificuldade de carácter colectivo, a primeira ideia é a de que devia surgir um homem que tomasse sobre os seus ombros o áspero martírio de ser chefe. Pois bem: pode ser que isso tenha trazido grandes benefícios noutras crises da História; nem vale por outro lado a pena perguntar o que teria sido da dia História se outras se tivessem apresentado as circunstâncias.
Mas, na presente, a verdadeira salvação só virá no dia em que cada homem se convencer que tem que ser ele o seu chefe. Ou, dentro dele, Deus.
Agostinho da Silva, Só Ajustamentos, 1962.
4.10.06
Compaixão e Sabedoria
Deu-lhe então leite morno e envolveu-a num cobertor macio. Colocou-a amorosamente ao lado dele na cama quando foi dormir. Pela manhã, o camponês estava morto.
Porque morreu? Porque usou apenas de compaixão mas não de sabedoria.
Se pegares numa cobra há grande possibilidade que ela te morda. Quando encontrares uma maneira de salvar a cobra sem a segurar estarás a equilibrar sabedoria e compaixão, e ambos ficarão felizes.
Compaixão e sabedoria deverão andar juntas. Ter uma sem a outra é como andar ao pé-coxinho. Podes saltar algumas vezes, mas acabarás por cair. Equilibrando as duas, andarás muito bem, atempada e elegantemente, passo a passo.
Que o amor seja o teu caminho
Que a sabedoria guie os teus passos."
Histórias budistas
22.9.06
Hotel Toffolo
E vieram dizer-nos que não havia jantar.
Como se não houvesse outras fomes e outros alimentos.
Como se a cidade não nos servisse o seu pão de nuvens.
Não, hoteleiro, nosso repasto é interior
e só pretendemos a mesa.
Comeríamos a mesa, se no-lo ordenassem as Escrituras.
Tudo se come, tudo se comunica,
tudo, no coração, é ceia.
Carlos Drummond de Andrade, in Claro Enigma, 1951.
14.9.06
O convite, de Oriah Mountain Dreamer
Não me interessa o que fazes na vida. Quero saber o que anseias, e se te atreves a sonhar alcançar o desejo do teu coração.
Não me interessa que idade tens. Quero saber se arriscas fazer figuras tolas por amor, pelo teu sonho, pela aventura de se estar vivo.
Não me interessa saber que planetas estão em quadratura com a tua lua. Quero saber se tocaste o centro da tua própria dor, se as traições da vida te abriram ou se secaste e te fechaste com medo de outros sofrimentos! Quero saber se consegues sentar-te com a dor, minha ou tua, sem te mexeres para a esconder, disfarçar ou compor.
Quero saber se consegues estar em alegria, minha ou tua, se consegues dançar loucamente e deixar que o êxtase te encha até às pontas dos pés e das mãos sem nos advertires para termos cuidado, sermos realistas, ou nos relembrares as limitações de se ser humano.
Não me interessa se a história que me contas é verdadeira. Quero saber se consegues desapontar outra pessoa para seres fiel a ti; se consegues suportar a acusação de traição e não atraiçoares a tua própria alma; se consegues estar sem amarras e mereceres, por isso, confiança.
Quero saber se consegues ver beleza todos os dias, mesmo quando o que vês não é bonito, e se consegues alimentar a tua própria vida da sua presença.
Quero saber se consegues viver com o fracasso, teu e meu, e mesmo assim erguer-te à beira do lago e gritar “Sim!” à prata da lua cheia.
Não me interessa saber onde vives nem quanto dinheiro tens. Quero saber se depois de uma noite de dor e desespero, em exaustão, a doer até aos ossos, consegues levantar-te e fazer o que é preciso para alimentar as crianças.
Não me interessa quem tu conheces, nem como chegaste aqui. Quero saber se ficarás comigo no centro do fogo sem recuar.
Não me interessa onde ou o quê ou com quem estudaste. Quero saber o que te sustém, por dentro, quando tudo o mais desaba à tua volta.
Quero saber se consegues estar só contigo e se gostas verdadeiramente da companhia que és nos momentos vazios.
The Invitation, Oriah Mountain Dreamer, 1999.13.9.06
Por quem os sinos dobram
No man is an island, entire of itself; every man is a piece of the continent, a part of the main. If a clod be washed away by the sea, Europe is the less, as well as if a promontory were, as well as if a manor of thy friend's or of thine own were: any man's death diminishes me, because I am involved in mankind, and therefore never send to know for whom the bells tolls; it tolls for thee.
John Donne, Devotions Upon Emergent Occasions - XVII, 1624.
1.9.06
respondeste-lhes apenas com
Ó doce espontânea
terra quantas vezes os
tontos
dedos de filósofos lascivos
te
apalparam
e
beliscaram,
o polegar travesso
da ciência aguilhoou
a tua
beleza, quantas
vezes as religiões te colocaram
nos seus joelhos esqueléticos
apertando-te e
fustigando-te para que concebesses
deuses
(mas
fiel
ao incomparável
leito da morte,
tua amante
no ritmo
respondeste-lhes
apenas com
a primavera)
e.e.cummings
O sweet spontaneous
earth how often have
the
doting
fingers of
prurient philosophers pinched
and
poked
thee
, has the naughty thumb
of science prodded
thy
beauty , how
often have religions taken
thee upon their scraggy knees
squeezing and
buffeting thee that thou mightest conceive
gods
(but
true
to the incomparable
couch of death thy
rhythmic
lover
thou answerest
them only with
spring)
e.e.cummings
30.8.06
Existia numa aldeia
- Para mim este cavalo não é um animal, é um amigo. Como é que eu podia vender um amigo?
Certa manhã, vai ao estábulo e o cavalo não está. Na aldeia, todos os vizinhos lhe disseram:
- Nós avisámos-te! Devias tê-lo vendido. Agora roubaram-to... que coisa má!
Ao que o homem responde:
- Bom ou mau, quem pode dizer?
Todas as pessoas fizeram pouco dele, achando que estava a ficar senil, pois começava a não saber distinguir a boa da má sorte. Mas uns dias depois o cavalo apareceu, com uma horda de cavalos selvagens. Tinha fugido para conquistar uma bela égua e depois o resto da manada veio com eles.
- Que sorte! - disseram os aldeões - Que coisa boa te aconteceu!
Ao que o homem respondeu:
- Bom ou mau, quem pode dizer?
O homem começava a ultrapassar os limites do pensamento normal, pensavam os aldeões. Enfim...
O homem e o filho começaram a domar os cavalos selvagens mas, uma semana mais tarde, o filho parte uma perna.
- Que coisa má que aconteceu! - dizem os amigos - Como vais fazer, se o teu filho, a tua única ajuda, não te pode ajudar? Tens mesmo má sorte!
Ao que o homem responde:
- Bom ou mau, quem pode dizer?
Afinal o homem estava mesmo a ficar senil! Como podia isto não ser má sorte?
Pouco tempo depois, os soldados do país chegaram à aldeia e levaram, à força se necessário, todos os jovens disponíveis.
Todos, excepto o filho do nosso homem, que tinha a perna partida.
- Que sorte tens tu! Todos os nossos filhos foram para a guerra e tu és o único a ter o teu filho à tua beira. Os nossos se calhar não voltam...
Ao que o homem responde:
- Bom ou mau, quem pode dizer?
20.8.06
19.8.06
Fatum, ou não :)
Kahlil Gibran, O Precursor, 1923.
12.8.06
Homenagem a Ricardo Reis
Não creias, Lídia, que nenhum estio
Por nós perdido possa regressar
Oferecendo a flor
Que adiámos colher.
Cada dia te é dado uma só vez
E no redondo círculo da noite
Não existe piedade
Para aquele que hesita.
Mais tarde será tarde e já é tarde.
O tempo apaga tudo menos esse
Longo indelével rasto
Que o não-vivido deixa.
Não creias na demora em que te medes.
Jamais se detém Kronos cujo passo
Vai sempre mais à frente
Do que o teu próprio passo
II
Escuta, Lídia, como os dias correm
Fingidamente imóveis
E à sombra de folhagens e palavras
Os deuses transparecem
Como para beber o sangue oculto
Que nos deixou atentos
III
Ausentes são os deuses mas presidem.
Nós habitamos
Nessa transparência ambígua,
Seu pensamento emerge quando tudo
De súbito se torna
Solenemente exacto.
O seu olhar ensina o nosso olhar:
Nossa atenção ao mundo
É o culto que pedem.
Sophia de Mello Breyner Andresen, Dual, 1972.
10.7.06
se deixarmos
A maior perda da vida é o que morre dentro de nós enquanto vivemos.
Norman Cousins
5.7.06
28.6.06
São apenas palpites e suposições
For most of us, there is only the unattended
Moment, the moment in and out of time,
The distraction fit, lost in a shaft of sunlight,
The wild thyme unseen, or the winter lightning,
Or the waterfall, or music heard so deeply
That it is not heard at all, but you are the music
While the music lasts. These are only hints and guesses,
Hints followed by guesses; and the rest
Is prayer, observance, discipline, thought and action.
The hint half guessed, the gift half understood, is Incarnation.
[Para a maior parte de nós, existe apenas o inesperado
Momento, o momento dentro e fora do tempo,
A distracção justa, perdida num feixe de luz solar,
O tomilho bravio adivinhado, ou o relâmpago invernil,
Ou a queda de água, ou música ouvida tão atentamente,
que deixa de ser escutada, mas tu és a música,
Enquanto a música continua. São apenas palpites e suposições,
Palpites seguidos de suposições; tudo o resto
É oração, observância, disciplina, pensamento e acção.
O palpite semi-adivinhado, o presente semi-compreendido, é Incarnação.]
T.S. Eliot, "The Dry Salvages," in Four Quartets, 1941.
26.6.06
uma forma deturpada de orgulho
Por um lado, insiste na nossa natureza humana pecaminosa. Portanto, qualquer cristão genuíno se considerará um pecador. O facto de tantos supostos e manifestamente devotos "cristãos" não se considerarem, no fundo, pecadores, não deve ser tomado como uma falha da doutrina, mas apenas uma falha do indivíduo na sua tentativa de estar à altura desta. Mais será dito sobre a maldade com disfarce cristão.
Por outro lado, a doutrina cristã insiste também em como somos todos perdoados pelos nossos pecados, pelo menos quando sentimos arrependimento por eles. Compreendendo a extensão do nosso carácter pecaminoso, sentir-nos-íamos provavelmente assolados pelo desespero, se não acreditássemos simultaneamente na natureza misericordiosa e piedosa do Deus cristão. Assim a Igreja quando sã, afirma que remoer interminavelmente todos os pecados que se cometeram, por menores que sejam (um processo denominado "escrúpulo excessivo") é, em si, um pecado.
Já que Deus nos perdoa, não nos perdoarmos é considerarmo-nos maiores que Deus, cedendo assim ao pecado de uma forma deturpada de orgulho.
in Gente da Mentira, M. Scott Peck, 1985.
13.6.06
O Livro de Mirdad, de Mikhail Naimy
Uma folha amarela na vossa árvore da vida é apenas uma folha à qual falta Amor.
Não culpeis a folha amarela.
Um ramo ressequido é apenas um ramo faminto de Amor.
Não culpeis o ramo ressequido.
Um fruto podre é somente um fruto que foi amamentado com ódio.
Não culpeis o fruto podre.
Culpai antes o vosso coração cego e egoísta que repartiu a seiva da vida por uns poucos e a negou a muitos, negando-a assim a si mesmo.
7.6.06
...Aproxima-te de Mim. Aproxima-te de Mim!
Faz o que sabes.
Faz o que tens de fazer.
Faz o que for preciso.
Reza um terço.
Beija uma pedra.
Curva-te para o Oriente.
Entoa um cântico.
Balança um pêndulo.
Testa um músculo.
Ou escreve um livro.
Faz o que for preciso .
Cada um de vocês tem a sua própria interpretação. Cada um de vocês Me entendeu - Me criou - à sua própria maneira.
Para alguns sou um homem. Para alguns sou uma mulher. Para alguns sou ambos.
Para alguns, não sou nem uma coisa nem outra.
Para alguns de vocês sou energia pura.
Para alguns, o sentimento supremo, a que chamam amor.
E alguns de vocês não fazem ideia do que Eu sou.
Sabem simplesmente que EU SOU.
E assim é.
EU SOU.
Sou o vento que vos roça os cabelos. Sou o Sol que vos aquece o corpo. Sou a chuva que vos dança no rosto. Sou o aroma das flores no ar e sou as flores que exalam a sua fragrância.
Sou o ar que transporta essa fragrância.
Sou o princípio do vosso primeiro pensamento.
Sou o fim do último.
Sou a ideia que iluminou o vosso momento mais sublime.
Sou a glória da sua realização.
Sou o sentimento que alimentou a coisa mais amorosa que jamais fizeram.
Sou a parte de vós que anseia por esse sentimento repetidamente.
(in Conversas com Deus 2, Neale Donald Walsh)
Eu sempre te disse que as pessoas deviam seguir os seus sonhos, mas nunca te disse porquê.
É simples.
As pessoas não devem seguir os seus sonhos para serem mais felizes. Nem para se tornarem completas.
Nem para evitarem as frustrações ou corrigirem o medo.
As pessoas devem seguir os seus sonhos por uma única razão.
Todo o ser humano vem à terra com uma missão.
Mas, independentemente da missão particular de cada um, existe a missão da raça humana.
O motivo básico e inicial da presença dos homens na terra.
A capacidade de exporem a vossa alma.
A capacidade de levar o divino à matéria, entrecruzar os mundos com energias penetrantes.
De cada vez que um homem expõe a sua alma, ele está a levar Deus à terra, a fazer o percurso sagrado.
E o percurso sagrado, a presença de Deus na terra, só se alcança fazendo a alma do homem brilhar.
E o que é que faz brilhar mais a alma de um homem do que o seu sonho?
(in quem quiser saber q pergunte :)
